Lilly of the Valley ou Muguet - perfume transcendental.


Lilly of the Valley (Lírio do Vale)
Fonte: kleberly.com

Difícil missão, tarefa hercúlea, descrever o papel dessa flor emblemática, simbólica, delicada, retraída, na perfumaria natural e comercial.

De cor branca ou rosada, com tons bege no centro e pistilos, apresenta o formato de sinos pequeninos que se curvam humildemente. Faz sua morada em lugares de sombras, meio escondidos, exigindo que nos aproximemos delicadamente para poder apreciar toda sua singeleza e beleza, e inalar seu rico e elegante perfume. Tem como condição requintada de sobrevivência, comportamento caprichoso de damas silenciosas, sua adaptação integral ao ambiente, no qual viceja abundantemente, ou por lado, se acaso haja desajuste adaptativo, fenece quase de forma imperceptível.

Seu nome científico Convallaria majallis, em Latim, traduz a origem de uma de suas denominações variantes: majallis (de, ou pertencente ao mês de Maio). Embora docemente perfumada, esta planta nativa dos países do Hemisfério Norte, apresenta-se como altamente venenosa. Possui seis pétalas e floresce na alta Primavera, quando o Inverno já se apresenta mais ameno.

A etimologia de muguet está conceptualizada em muscade (noz moscada), pois há nas moléculas de seu aroma uma nuance indefinida dessa especiaria. A trajetória etimológica percorrida seria: muscade → mugade → muguet.

Ricas e simbólicas associações lhe são atribuídas, principalmente no que tange à religiosidade, colocando-a no patamar da humildade requerida de santos e figuras sacras. Por isso, está presente em inúmeras pinturas, representando essa qualidade. Recebe codinomes charmosos, como: escada para o céu, lírio de Maio, sinos de Maio, lágrimas de Maria, Muguet, etc.

Sempre esteve presente nos bouquets nupciais de famosas e célebres noivas, como Grace Kelly (princesa de Mônaco), Jacqueline Kennedy, Lady Diana Spencer, e Catherine Middleton, Duquesa de Cambridge e mãe do futuro Rei da Inglaterra.

Tradicionalmente, na França, costuma-se presentear as pessoas com flores de muguet, como símbolo de amizade, no dia 1º. de Maio. Essa tradição remonta aos romanos, na verdade, à Roma Antiga com sua celebrações em homenagem à Flora,  a deusa das flores. Os Celtas, povos da Antiguidade, cultuavam também nesse dia, o início do Verão, dançando ao redor de árvores para espantar os maus espíritos, reverenciando também o lírio do vale como símbolo de boa-sorte.

Muito mais tarde, em 1900, numa festa para comemorar os feitos dos estilistas parisienses, todas as mulheres presentes nesse evento receberam um bouquet de muguet.

Christian Dior, o estilista de todos os tempos, aderiu à inovação e transformou o muguet no emblema de sua griffe.

O aroma do muguet tem cativado perfumistas ao redor do mundo por centenas de anos. Nas leituras de Arctander em seu icônico Perfume and Flavor Materials of Natural Origin, ficamos sabendo que uma quantidade ínfima, para não dizer quase nada, ou mesmo, nunca, um absoluto de Lilly of the Valley foi extraído. Atualmente, a extração desse absoluto genuíno está completamente fora de questão.

A reconstituição do aroma de muguet baseia-se ou na combinação de essências naturais cítricas, jasmim, flor de laranjeira, rosa, e notas verdes como vetiver, ou em recursos sintéticos. Temos aqui duas técnicas: matérias-prima naturais idênticas (isto é, aroma sintético, criado por reação química), e matérias-prima modificadas quimicamente, em que o ponto de partida são os elementos naturais (caso da primeira opção, da combinação de essências naturais). O ingrediente clássico é o hydroxycitronellal, patenteado como lyral ou lilial. Essa molécula aromática produzida pela Givaudan tem gerado polêmicas acirradas desde 2012,  por questões de toxicidade.

Piesse, em sua obra clássica da perfumaria natural, apresenta um doppelganger para o Lilly of the Valley, o qual aproxima-se do natural com bastante fidedignidade.

O aroma dessa flor emblemática tem sido valorizado através dos tempos pelo seu impacto na consciência daqueles que têm o privilégio de aspirá-la. Esse impacto depende muito da concepção particular individual que as pessoas constroem do aroma percebido, com base naquilo que entrou na estruturação molecular do aroma, ou seja, o local onde a planta foi cultivada, a maneira como foi cultivada, os impactos ambientais. Além do conceito já pré-estabelecido e disseminado de flor rara e icônica que, por certo, já se apresenta arraigado na alma daqueles que têm o privilégio de cheirá-la. 

Para alguns que experimentaram seu aroma, os qualificativos  vão de cálido, delicado, floral-doce, com subtons de verde e mel, e uma leve deixa de acordes cítricos-rosáceos.

Para fins de classificação olfativa, seu perfume é de floral branco-especiado (white spicy-floral).

Os efeitos do perfume dessa flor consolam e acalmam o coração, abrindo a mente à quietude dos vislumbres da beleza e da doçura.

Autora: Profa. Dra. Neide Munhoz Albano

12 de Maio de 2015.

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