Foi lá pelos idos de 70. A juventude no sangue fervilhava à menor emoção. Tudo eram flores. A vida? Ah! Essa parecia que não iria acabar nunca...O amor não era distinguido da paixão, da amizade, do companheirismo, do partilhar tudo a todo instante. Hoje, sinto que talvez não soubéssemos aonde iríamos parar com tantos planos, tantos desejos, tantas aspirações. Só interessava a vida e todas as suas emoções. Fortes, por sinal!
Era um domingo, desses de sol de verão, tudo verde, rescendendo a jasmins e magnólias, em que o aroma assomava às narinas e deleitava o coração. Ao menor ruído do ser amado o coração, aos pinotes, brincava de esconde-esconde, antevendo a aventura que se descortinava à frente. Era, de verdade, um misto de alegria, temor, cumplicidade, ânsia mesmo, pelo novo que estava sendo prometido. Ele, piloto de primeira viagem (parodiando quem se aventura pelo mar bravio) houvera prometido o passeio a dois somente, numa aeronave de lona, dessas comunzinhas nos aeroclubes de cidadezinhas do interior. E lá fomo nós. Parecia a mim uma viagem às estrelas, ou à uma galáxia perdida além das fronteiras da Via-Láctea. Hoje, exatamente 50 anos após, sei a roupa que vestia, a cor da terra na pista de rolagem, a grama recém-cortada, emoldurando o campo de aviação. Ainda vejo o galpão aberto, a aeronave sendo empurrada para fora do hangar, e o estribo onde, sem dificuldade, galguei para acomodar-me na posição do instrutor. O teco-teco rolou, rolou, e já no final da pista começou a levantar o nariz. Algumas voltas pelo campo e, em seguida, seguimos a rumo da rodovia que nos levaria ao voo panorâmico sobre nossa cidade. Nem em sonho imaginava o perigo, a segurança precária, a possibilidade de uma catástrofe ao menor erro. Já sobre cidade, rumamos para minha casa, para o reconhecimento do meu bairro, minha rua, meu quintal...Lembro-me que meu pai estava na frente de casa e, daquela altura onde eu estava pude perceber que acenava alguma coisa. Claro que não estava feliz! Quem ficaria? Mas, o pior foi perceber que estava com a cinta na mão, agitando-a no ar, prometendo alguma coisa. Quê cinta quê nada! O que tinha sentido, naquele momento, era a sensação de des(horizonte), o contínuo do azul, o vento gemendo e cantando ao nosso redor, o mundo aos pés, a sensação de eternidade. Fizemos a volta, lá longe, e retomamos a rota de volta. Pousamos com o sol quase se escondendo, lá onde céu e terra se encontram. Sabíamos, ao final, que toda aventura tem seu preço, e não seria qualquer explicação que acalmariam os ânimos em casa. Enquanto voávamos naquele céu de brigadeiro, esquecidos de tudo, veio-me à cabeça a frase de Richard Bach, num de seus livros que nem me recordo qual agora: "Morrer é como mergulhar num lago profundo, num dia de muito calor." Morrer, para nós, naquele dia, quando contávamos 18 anos, era somente um mergulho nas águas quentes de um lago infinitamente profundo. Nada mais!...
Devem ter sentido uma sensação indescritível, você e aquele piloto sem experiência !
ReplyDeleteAcredito que êle deva ter levado você à sensações mais excitantes !
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